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Agricultura: Investir nas pessoas, a lição brasileira

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Por Mario Osava, da agência internacional de notícias IPS.

 

Nova Russas, Ceará, 23/07/2009 – O nigeriano Kanayo Nwanze escolheu o Brasil para sua primeira visita oficial com presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida). Ficou completamente satisfeito: foi a ocasião oportuna para confirmar pessoalmente o compromisso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a agricultura familiar. Além de conversar com membros do governo em Brasília, Nwanze conheceu a realidade dos camponeses pobres e as transformações em razão dos projetos apoiados pelo Fida no nordeste do país, através do Projeto Dom Helder Camara. 


A política de cooperação agrícola que o Brasil começa a desenvolver, especialmente com a África, também interessa muito ao Fida, agência da Organização das Nações Unidas especializada na pequena agricultura e na luta contra a fome. Nwanze concedeu esta entrevista à IPS em sua visita a uma comunidade de agricultores familiares em Nova Russas, município pobre de 30 mil habitantes no interior do semi-árido Estado do Ceará.

 

IPS- O que o Fida espera do Brasil em termos de transferência de tecnologia e de conhecimentos para a África?

Nowanze- Primeiro, vamos estabelecer um critério básico: o investimento na agricultura de minifúndio familiar é a mais crucial, a que dá mais benefícios seguros, tanto no Brasil quanto na maior parte da África subsaariana. Estes investimentos são de duas a quatro vezes mais efetivos para reduzir a pobreza do que qualquer outro. Hoje, no Brasil, esse tipo de agricultura representa 70% dos produtores. Na África subsaariana, são cerca de 80%: à razão de cinco pessoas por família, estamos falando de aproximadamente 400 milhões de pessoas. Isto é mais do que a metade da população da África subsaariana, e produz 80% dos alimentos da região.



Os êxitos que vemos aqui, a capacidade dos agricultores de se organizarem, a estrutura social que instalaram, o enfoque dirigido ao mercado, tudo isso é facilmente aplicável no contexto africano. Representantes sul-africanos vieram ao Brasil em novembro passado. Os brasileiros irão à África do Sul este mês. O Fida cumpre o papel de facilitador do intercâmbio de conhecimentos que o Brasil acumulou e que podem ser transferidos para qualquer parte do mundo. Espero que os governos africanos se dêem conta da importância dos compromissos políticos em seu mais alto nível, e o Presidente Lula é exemplar nesse sentido. Ele nos disse pessoalmente, quando o visitamos em Brasília, que investir nas pessoas e no minifúndio consegue tecer a mais sustentável das redes de seguridade social.


IPS- O que pode dizer do conceito brasileiro de agricultura familiar? O senhor adotou esse conceito no Fida?

Nowanze
-  Não é um conceito: é uma simples prática. No Brasil se chama agricultura familiar, e isso equivale a minifúndio agrícola, a agricultura de pequena escala.



IPS- Mas o fato de no Brasil se falar de agricultura familiar e não de agricultura de pequena escala dá uma idéia de comunidade.

Nowanze-  É o mesmo. As pequenas propriedades africanas estão localizadas umas junto das outras. E isso lhes dá maiores possibilidades de êxito, porque não se trata de produtores individuais. Nesse esforço comunitário se integram os valores familiares, e no processo também se percebe a agricultura como negócio, como criadora de empregos, como produtora de riqueza econômica. Não é uma simples fonte de alimento para a família.



IPS- Quais lições deixa a crise econômica no plano da segurança alimentar?

Nowanze- A primeira, e espero que o mundo a tenha aprendido, é que não se pode reduzir o investimento na agricultura. Com a carestia de 2007, houve distúrbios em todo o mundo, do Egito ao Haiti. E isso foi consequência do desinvestimento, tanto em nível internacional quanto nacional. A porcentagem da ajuda oficial ao desenvolvimento destinada à agricultura caiu de 20% em 1980 para menos de 5% em 2007. O investimento dos governos nacionais caiu de 14% para menos de 4%. Enquanto isso subiam os preços do petróleo e dos fertilizantes. Os agricultores não tinham acesso aos insumos, que são caros. Assim, veio a crise. A agricultura está nas últimas paginas da agenda, e tudo mostra que é, na realidade, a coluna vertebral do crescimento econômico de qualquer nação.



IPS-  Então, a prioridade deve ser a pequena agricultura ou a agricultura em geral?

Nowanze-  Ambas. Devemos investir em agricultura. Nas comunidades onde há minifúndios, devemos investir neles. É preciso gerar oportunidades para elas, as vincular com o setor privado. Devemos fazer com os pequenos produtores o mesmo que fazemos com os grandes estabelecimentos. Os investimentos em agricultura não podem parar, porque tudo continua crescendo. Não podemos deixar de investir no setor por terem baixado os preços e pensarmos que não precisamos produzir mais alimentos. Me parece que o mundo se deu conta de que a insegurança alimentar pode derivar em insegurança internacional.



IPS- Qual o papel das negociações da Organização Mundial do Comércio? Deve haver acordo? Eliminar os subsídios seria bom para os países pobres.

Nowanze- Naturalmente, as negociações devem ser concluídas. Com comércio justo, com o fim das barreiras internacionais ao intercâmbio... À maioria dos países em desenvolvimento se diz para não subsidiarem seus agricultores, mas sabemos, ao mesmo tempo, quanto gastam as nações ricas em subsídios para seus produtores. Por que a dicotomia? Os subsídios são bons para a Europa, são bons para a África e para o Brasil. Mas os subsídios de sucesso são os pequenos. Os subsídios inteligentes. Como fez Malawi com o milho: o governo ajuda os agricultores e lhes facilita o acesso ao mercado e à tecnologia com incentivo ao crescimento econômico.



IPS-  Há conflito entre biocombustíveis e alimentos?

Nowanze- Há quanto tempo o Brasil produz biocombustivel? Vinte e cinco anos?

IPS- Trinta anos.

Nowanze-  Trinta anos. Há conflito? Não. Não se pode dizer que nada seja ruim por si mesmo. O problema é como se faz. Se uma área onde se planta alimento, milho, por exemplo, começar a ser usada para produzir biocombustível, se reduz o acesso ao grão. Provoca-se um encarecimento artificial. Quando em terras agrícolas de países pobres se começa a produzir biocombustíveis, seus governos sairão a mendigar comida e sobreviverão apenas através da assistência.


O que também está em questão é a viabilidade econômica. O Brasil, por exemplo, plantou cana-de-açúcar em terras que até então não eram agrícolas. Isso foi economicamente viável e o preço do açúcar não foi afetado. É diferente se a Europa decidir aumentar em 10% sua produção de biocombustíveis, pois produzirá um litro com um gasto de água 10 vezes superior ao que consome para produzir um litro de combustível fóssil. Por isso, os biocombustíveis não são um erro, mas pode ser errado o contexto no qual se investe neles.



IPS-  A agricultura familiar adota cada vez mais o que no Brasil se chama agroecologia. O que pensa dessa modalidade?

Nowanze-  Basicamente, o termo agroecologia, como empregado no Brasil, significa agricultura orgânica, praticada sem pesticidas ou inseticidas químicos. Por que uma comunidade deveria usá-los se carece de recursos para comprá-los devido ao seu preço alto? Mas, devemos situar os argumentos em seu devido contexto. Se existe a possibilidade, seja no Brasil ou na África, de produzir alimentos orgânicos através da agricultura familiar e de obter bons preços, devido à demanda do Norte, por que não fazê-lo, dessa forma gerando riqueza?



É simples: o preço dos fertilizantes e dos inseticidas químicos é alto, o do combustível sobe. Quem pagará o custo de uma comunidade agrícola familiar? Para estes camponeses, é mais eficiente cultivar sem produtos químicos. Mas, em um país onde apenas 2% dos habitantes são agricultores e os salários não são altos, são necessários outros enfoques para produzir alimentos.



IPS- Falemos de cultivos geneticamente modificados...

Nowanze-  Há cerca confusão com o uso desse termo. Quando transferimos genes de uma espécie para outra – de um animal para um vegetal, por exemplo – falamos de organismos transgênicos. É uma coisa distinta. Não esqueçamos que a medicina usa organismos geneticamente modificados para produzir vacinas há muito tempo. Meu corpo, seu corpo, têm esses organismos por razões sanitárias. A agricultura tem problemas que não podem ser resolvidos com enfoques tradicionais. Há áreas com secas freqüentes cujos produtores não podem plantar cultivos resistentes a elas. Nesses casos, a única possibilidade é apelar para os transgênicos: há um problema, e nesse caso a tecnologia é a única ferramenta. Agora, nem 5% das terras agrícolas da África são irrigadas, e a maioria delas fica no Egito, não na região subsaariana.



Os agricultores africanos usam oito quilos de fertilizante por hectare, quando os asiáticos usam apenas 1,2 quilo. Se não explorarem tecnologias simples, que já existem, por que teriam de recorrer aos transgênicos? Coloquemos o cavalo à frente da carroça, não atrás. Ali onde o único recurso possível é o uso de organismos geneticamente modificados... devem ser usados. Mas, não são a solução par à crise alimentar, e sim para um problema particular: o das pestes que se tornam totalmente resistentes aos pesticidas químicos.

 


(Envolverde/IPS)

 

   

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